EDIÇÕES DE AUTOR :
Medalha, artesanato e expressão artística - encomenda, produção, público e artista
Um dos aspectos que caracteriza a medalha prende-se com a sua reprodutibilidade.
Contrariamente à escultura, que tende para a obra única, a medalhística encara cada peça na sua condição de múltiplo.
No decurso do acto criativo o artista vai tendo a percepção das condicionantes formais da sua expressão e decide, implicitamente, qual o processo tecnológico a utilizar.
Se bem que alguns processos, nomeadamente, a moldagem, a fundição e a estampagem tenham sido utilizados desde as mais antigas civilizações, é a partir da revolução industrial que os seus efeitos se maximizam difundindo-se o seu uso nas práticas artísticas, culminando na democratização e no alargamento do consumo dos objectos .
O desenvolvimento dos meios de reprodução mecânica trouxeram consequências tanto em termos quantitativos como qualitativos. Em termos quantitativos, porque a maior facilidade de reprodução permitiu ganhar tempo, baixar os custos e aumentar a produção o que, consequentemente, também contribuiu para a vulgarização do seu consumo. Em termos qualitativos, porque o aumento da produção a par da massificação do consumo contrasta, paradoxalmente, com a decrepitude do género medalha. As consequências medem-se pela arbitrariedade da produção e pelo efeito de alienação decorrente do modo como a medalha é olhada, nomeadamente, nos circuitos em que procedem à sua sobrevalorização comercial, em detrimento da sua vertente estética. A extensão desse impacto afere-se, por exemplo, pela avalanche das encomendas directamente efectuadas às oficinas de gravadores. O público consumidor em geral, pouco exigente, entrega o trabalho de artista aos artíficies, esquecendo-se que estes, embora manualmente hábeis e tecnologicamente competentes, não têm a formação estética e artística, nem a apetência conceptual e crítica.
A encomenda é o que normalmente origina a produção da medalha. Em abstracto, a encomenda condiciona a medalha por antecipar o desejo de forma do encomendador que, vulgarmente, se quer rever no futuro corpo do objecto.
Com frequência os encomendadores são entidades, organismos, ou associações de caracter público ou privado que a pretexto de um qualquer evento ou, comemoração, fornecem o motivo para a edição de medalha.
Na maioria das vezes a medalha fica comprometida ao assunto prévio, ou ao tema de caracter publicitário que, usualmente, é veiculado pela legenda. Neste caso trata-se mais da construção de um acessório convencional do que da constituição de um projecto artístico na área da medalhística. Este à priori, refém do carácter ilustrativo da legenda, é antagónico ao carácter imprevisível e “polifónico” da imaginação criadora.[1]
Em contraste com a função útil das grandes edições comerciais o que a medalha de autor perde como produto empresarial, alcança em beneficio estético no regime não utilitário e/ou desinteressado da actividade espiritual que é apanágio da medalha enquanto obra de arte.
As edições de autor por surgirem na sequência do processo de auto- encomenda dos artistas que, também, normalmente, assumem os custos de produção são, por isso mesmo, constituídas por um reduzido número de réplicas.
De temática e género muito variáveis de acordo com o caracter de cada artista, as medalhas de autor cumprem aspirações de ordem prática e simbólica. De índole prática porque se inserem num processo de investigação plástica que é o campo onde o artista exercita as suas capacidades de representação de acordo com os valores específicos da linguagem e que, deste modo, contribuem para a permanente reinvenção e revitalização do género. Por outro lado cumprem, também, uma função simbólica porque é na arte, nomeadamente, pela catarsis, que o singular toca o universal. A obra d’arte não pertence ao artista que a cria mas à comunidade que a olha e nela se revê; em última análise, pertence ao público que a encontra e que com ela estabelece algum tipo de relação.
O assunto não é novo nem de resposta fácil. Este texto insere-se, aliás, numa estratégia de reflexão mais alargada, surgindo na sequência de outros dois: o primeiro «Medalha contemporânea, formas e teoria artística»[2] onde tentei estabelecer as bases normativas da medalha enquanto género artístico e o segundo, “Reprodutibilidade e Realidade na medalha contemporânea – do pingente das abelhas à Apis Mellifera” [3], onde pretendi reflectir sobre os processos tecnológicos de reprodução da medalha em contraponto com as estratégias da imaginação criadora.
Este último aspecto já, também, aqui focado, gostaria de o retomar a propósito das imagens que trouxe para mostrar e que por razões de ordem metodológica ficaram subordinadas a princípios de leitura que designo como temas, séries e sequências.
A razão de ser desta opção assenta na necessidade de propor modelos sistemáticos cuja estrutura permita, nomeadamente, analisar algumas variáveis do pensamento criativo.
TEMAS:
O estudo de temas, subsidiário do método iconográfico, tem a vantagem de contribuir para estabelecer relações de comparação entre exemplares e de permitir apurar as diferentes hipóteses compositivas ao redor de um mesmo referente isto é, ajuda a propiciar uma visão sobre diferença de olhares em torno de um assunto que é comum às varias soluções formais.
Há temas de circunstância, que se tornam comuns a muitos autores, recordo por exemplo as medalhas realizadas em dois mil a propósito da celebração do novo milénio.
| Medalhas de 2000 |
| Helder Batista, João Duarte, “2000- um estado de espírito, bronze prata e acrílico, construída, 1999 Victor Santos, |
Outro exemplo conhecido pela maioria dos escultores portugueses aqui presentes, é a colecção de medalhas dedicadas à poetiza Natália Correia - uma vida , treze estações - e que até ao presente momento ainda não conheceu a possibilidade de divulgação do seu conjunto.
Outro exemplo, ainda mais recente, é a “colecção” de medalhas eróticas realizadas em 2003 pelo grupo Anverso-Reverso e que já agora aproveito para divulgar.
Este conjunto constitui uma unidade quer em termos de temática quer em termos de material e de técnica uma vez que todas as medalhas têm o mesmo diâmetro e foram produzidas em bonze pelo processo de cunhagem. [4]
| Medalhas eróticas |
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Álvaro França, a tua cintura moldou-a o meu braço como um rio (Pablo Neruda) Vitor Santos, assim toda te destes, assim todo me dei (José Régio) José Aurélio, Lascivo, salivo, cativo ( Vasco Graça Moura) José Simão, na vidraça da janela a chuva leve, tinia, (António Botto) José Teixeira, €ros & P$ik Helder Batista, Ledo engano |
SÉRIES:
As Séries correspondem ao que eu julgo ser o espírito de insatisfação e de investigação de cada artista. As séries oferecem um bom motivo de trabalho aos autores até porque como dizia Almada o artista passa a vida a fazer a mesma obra e já agora, Rodin, também tinha razão, quando dizia que uma obra depois de concluída deveria ser sucessivamente retomada i.é., como quem diz, que a perfeição é um caminho não um ponto de chegada.
Para ilustrar o caso, permitam-me a auto-promoção, ao apresentar algumas imagens de uma das várias séries que desenvolvi. [5]
Neste caso, a série escolhida tem como leitmotiv os interruptores. [6]
Em finais dos anos noventa os interruptores constituiriam, para mim, motivo para uma série de medalhas.
| Medalhas- série com interruptores |
| 1999 José Teixeira, Orpheu, aço e madeira, construída, 150x80x50mm, 1999 (protótipo) José Teixeira, Orpheu, 150x80x50mm, steel and wood, constructed , 1999 (prototype) José Teixeira, Abre-te Sésamo, couro e plástico, construída, 140x110x35 mm, 1999 (protótipo) José Teixeira, Opens Sésame, leather and plastic, constructed, 140x110x35 mm, 1999 (prototype José Teixeira, Rool-on, aço inox e plástico, 100x35 ø mm, 1999 (protótipo) José Teixeira, Rool-on, stainless stell and plastic, 100x35 ø mm, 1999 (prototype) José Teixeira, Pim, aço inox,, 60x 70 ø mm, 1999 (protótipo) José Teixeira, Pim, stainless stell, 60x 70 ø mm, 1999 (prototype) 2000 José Teixeira, Orpheu 2000 / Evocação do novo milénio, plástico, construída, 150x90x50mm, 2000 (ed., 36 units) José Teixeira, Orpheu 2000/ New milénio evocation, plastic, constructed, 150x90x50mm, 2000 (ed., 36 units) José Teixeira, On-off , fundição em estanho/chumbo, 110x30x25mm, 2000 (ed., 10 units) José Teixeira, On-off, casting in tin/lead, 110x30x25mm, 2000 (ed., 10 units) |
Quando me questiono sobre o interesse suscitado por esses objectos, pela sua apropriação e revisitação temática reparo que, significativamente, se relacionam com a actividade da mão, ao nível do tocar e do pensar. A princípio a mão protagoniza o Click que acende/apaga, liga/desliga em cumprimento da função válvula, isto é, de abertura / fecho ou on/ off e, por extensão, ela intervém, também, na função magico/ simbólica de uma dialéctica da alteridade, eu/outro, sim/não que, em termos estruturais, sintetiza a lógica binária do pensamento Ocidental. [7]
SEQUÊNCIAS:
Ao que chamei sequência tem a ver com a possibilidade de desdobramento formal derivado da mesma unidade temática. Os trios de medalhas, que é o que vou mostrar, constituem, uma espécie de narratividade encenada em vários momentos.
Eis então, alguns exemplos:
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Medalhas- sequências em trio |
| 2002 José Teixeira, Verso, Anverso, Reverso, acrílico e vinil, construída, 80 ø mm, 2002 [Serie de 3 (ed., 5 units)] José Teixeira, Verse, Obverse, Reverse, acrylic and vinyl, constructed, 80 ø mm, 2002 [Series 3 (ed., 5 units)] José Teixeira, Rouge et Noir, aço inox e acrílico , construída, 85x55x0,8mm, 2002 [Serie de 3 (ed., 5 units)] José Teixeira, Rouge et Noir, stainless stell, acrylic, constructed, 85x55x0,8mm, 2002 [Series 3 (ed., 5 units)] |
Excepção, que confirma a regra que é esta série em que a mesma solução formal se presta a três títulos.
Olga Neves, Eternidade
Imaterialidade
Sedução
2003
Helder Batista,
Vitor Santos,
José Simão,
José Teixeira, Seixos Rolados, ónix, 100 ø mm, 2003 (ed., 5 units)
José Teixeira, Rolled Pebbles, ónix, 100 ø mm, 2003 (ed., 5 units)
Esta sequência surgiu na sequência de pretender fazer uma representação do tempo no que ele tem de efemeridade ao rolar e do pode ter de perene cada instante.
Bem hajam por me acompanharem neste lugar!
Aproveito para lembrar que se o mundo é um lugar para todos a medalha tendo um formato mais intimista é “um lugar para ti”. [8]
JOSÉ TEIXEIRA
Out . 2004
[1] Toda a estrutura artística é essencialmente “polifónica”: a sua progressão não segue uma linha única de pensamento, mas várias uma vez que se sobrepõem umas nas outras . Daí que a criatividade requeira uma espécie de atenção difusa separada alheia e contrária à que normalmente, costumamos por em jogo quando pensamos em lógica. Cf., EHRENZWEIG, Anton, el orden oculto del arte,Barcelona, editorial Labor,S.A., 1973, p.,10
[2] José Teixeira, “ Contemporary medals, Forms and artistic teory”, The medal, Autumn 2003, N.º 43, pp., 81-83; idem , www.artmedal.net ; ibidem, www.kunstmedaille.de ; idem ,ibidem, www.artgallery-online.net; idem ,ibidem, www.escultor.com.pt
[3] Comunicação efectuada na sequência da III Bienal Internacional de Medalha Contemporânea do Seixal em Novembro de 2003
[4] vid., texto do catálogo: “a experiência diversa do olhar”
[5] Outros exemplos podiam ser as séries de Auto-retratos ou de conjuntos como Noite e Dia.
[6] O texto que se segue foi escrito em Fevereiro de 2003 na sequência da comunicação efectuada, pelo Prof. Helder Batista no Hospital Júlio de Matos a propósito de o erotismo na medalha. A propósito da medalha Rool-on, (protótipo em aço inox e plástico, 100x35ømm,1998) ai mostrada dizia o seguinte: No seguimento das variações compositivas em torno da figura do modelo interruptor e da deriva poética pelo elogio da mão, construo o protótipo da medalha objecto A Rool-on é um “feliz encontro” de duas formas: uma bola de ping-pong e a extremidade de um secador de cabelo, que acabam juntos em cúmplice afinidade e dúplice comunhão. A forma, explicitamente fálica, fez-se aqui acompanhar de um título publicitário cujo enviesado jogo semântico, em estratégia subliminar, remete para o cenário narcísico de um erotismo pueril, expressão de um patético jogo de sedução entre o simulacro da palavra e a presença do real.
[7] Na filosofia, a lógica binária, espelha-se na “coincidentia opositorum” e em termos tecnológicos nos sistema de computação ; função zero-um; sim-não.
[8] Distribuição da medalha de papel : faça você mesmo - um lugar para ti